Origem
"Gótico" em primeira estância, significa: relativo aos godos, uma confederação de tribos germânicas que invadiu o império romano durante o séc.III d.C e foram os primeiros povos germânicos a se converterem ao cristianismo. A primeira distorção do adjetivo data da renascença. Os italianos achavam que a arte clássica, que admiravam e procuravam reviver, fora corrompida na idade média pelos cristãos. Assim sendo, fizeram dos godos seu bode-espiatório e taxaram pejorativamente toda a arte medieval (cristã). De gótica, ampliando assim o sentido da palavra. Até hoje, a arquitetura que tornou o lugar da românica na construção das igrejas e catedrais européias (caracterizada pelas altas ogivas, vitrais religiosos e gárgulas) é denominada como gótica. A pintura de manuscritos desta época, assim como suas letras, ricamente detalhadas, receberam o mesmo rótulo. Obras literárias também carregam o rótulo. Em 1704, o escritor inglês Horace Walpole publicou "The Castle of Otranto". Com forte de Milton e das novelas de terror (grande parte delas eram cópias vulgares de Macbeth, tragédia de Shakespeare), o livro foi considerado a primeira novela gótica. Estas novelas eram vistas como uma subdivisão das novelas de terror, que se diferenciava por seu mistério ( a morbidez e o horror melancólico substituíram o medo físico). O sobrenatural era largamente explorado e elas eram assim chamadas porque geralmente eram ambientadas em casarões ou castelos medievais (neste caso, o estilo poderia Ter qualquer outro nome, e agora, pela Segunda vez distorcido, já não continha mais nada do seu significado original).
Herança destas lúgubres sementes, desenvolveu-se o romantismo negro, que teceu o tédio e a decadência nos tons da estética gótica. Nomes como Lord Byron, Percy Shelley, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire e Álvares de Azevedo podem ser aí incluídos...
No começo do século, marcada pela primeira grande guerra, a Alemanha via suas artes parindo monstruosidades. E foi neste contexto, no silêncio do expressionismo alemão, que o horror gótico teve seu berço no cinema. O gigante de barro de "O Golem" (1915), de Paul Wgner; o sonâmbulo cadavérico de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1919), de Robert Wiene; e o atrofiado vampiro de "Nosferatu – Uma Sinfonia do Horror" (1922), de F. Murnau são exemplos dos fantasmagóricos personagens desta escola cinematográfica projetada à luz e sombra. Com "O Fantasma da Ópera" (1925), de Rupert Julian e "London After Midnight", de Tod Browning (ambos estrelados por Lon Chaney), os EUA acolhem o estilo e transformando terror em entretenimento de massa, produzindo clássicos do terror gótico durante toda a década de 30. "Dracula" (1931); "Frankeinstein" (1932) e "A Noiva de Frankeinstein" (1935) são alguns frutos deste época.
Na música o primeiro uso (notificado) do termo foi feito pelo inglês Anthony H. Wilson, num programa de 1978 da TV BBC, onde ele descreveu o Joy Division como sendo gótico comparado ao pop em voga. Neste caso, provavelmente, "gótico" foi usado por remeter ao passado, em função do romantismo anacrônico da banda. Em 1979, o Bauhaus lança seu single de estréia, "Bela Lugosi’s Dead". A música foi originalmente concebida como uma brincadeira, porém, além de uma atmosfera sombria ela evoca em sua letra imagens típicas de velhos filmes vampíricos como flores murchas e caixões e por isso atraiu para a banda o rotulo de "gótica". Aqui, temos duas bandas musicalmente diferentes carregando o mesmo rótulo por motivos diferentes...
A popularização do termo, entretanto, só ocorreu mais por tarde, quando Siouxsie Sioux o usou para descrever a nova direção que sua banda tomava; e Ian Astbury (Southern Death Cult) descreveu Andi (Sex Gang Children) como um "duende gótico". Algumas revistas inglesas passaram então a agrupar essas bandas como góticas, baseando-se mais no seu visual do que em sua música. O Sister of Mercy foi inserido e quando sua formação se dividiu, Wayne Hussey carregou o rótulo ao fundar o Mission. Como conseqüência, um circuito de casas noturnas que divulgavam o estilo foi inaugurado. Em Londres, a Bat Cave foi notória (em São Paulo, na virada de 80 para 90, a Treibhaus teve o mesmo papel). Nestas casas, a música foi referência para a consolidação de um "comportamento" de forte influencia punk, porém, com mais aspectos estilísticos e estéticos do que ideologia, caracterizando a Dark Wave ( Onda Obscura) como uma sub-cultura ao invés de um movimento. Entretanto, gótico passa a ser um adjetivo, que não deve ser proclamado, e sim, considerado como tal. Sempre se fez muita confusão com estilo (muitas das bandas supostamente góticas repudiam o rótulo). Musicalmente, o estilo agrupava diversos ritmos, desde o rock mais cru até uma música mais refinada, erudita, deste bandas mais agressivas como o 45 Grave até o barroco do Ataraxaia...
Portanto, é legado a cada um o direito de considerar ou não uma banda como sendo gótica.
Os Góticos ( um esboço)
Não há um estatuto que defina com exatidão o que faz de alguém um gótico. Cada um deles terá sua própria concepção (ao menos deveria Ter).. Também, é preciso Ter em mente que quando falamos de um estilo pessoal, falamos de estereótipos nada rígidos.
Particularmente, considero gótico aquele que é genuinamente atraído pelo mórbido e vive de mãos dada ao que a psicologia considera a Sombra da personalidade.
O vampiro, mas do que uma simples influência, é um dos alicerces da cultura gótica. Seu aspecto mais relevante é a sua condição de morto-vivo, modelo fúnebre de liberdade idealizado nos filmes de terror.
A melancolia e a subversão, quando postas lado a lado provém terreno fértil para o desenvolvimento deste tipo de personalidade. Os estados depressivos também são corretamente associados aos góticos, como se cultivassem a tristeza. Muito pelo contrário, a tentativa de uma relação de cumplicidade com a dor, pela naturalidade com que as mágoas são vistas, caracterizam uma resistência ao invés de um convite para que o sofrimento permaneça. Exteriorizando suas nódoas ao ponto de domá-las, assim se exorcizam..